terça-feira, 29 de julho de 2008

O mundo em conjuntos...

Uma das grandes coisas que aprendi com o Sartre foi ver o mundo, as pessoas e os grupos em seus conjuntos. Este conceito de mundo e de sujeitos está presente em muitos livros dele, na verdade Sartre é muito didático e tem uma capacidade ímpar de ir a fundo no desdobramento das variáveis que constituem os fenômenos, mas sempre as retoma em seus conjuntos. Ele mostra sempre que esta é a única saída para não cairmos em julgamentos morais, seja dos grupos como um todo, seja das pessoas em particular.

Estou escrevendo sobre isso no primeiro texto deste espaço virtual porque aqui vamos tratar dos conceitos separados, até para compreendê-los melhor, mas nunca poderemos esquecer que eles estão articulados e que só existem desta forma.

E para ilustrar trago o livro que deu o nome ao Blog: “A engrenagem”. Já disse para vocês que este é meu livro preferido do Sartre? Pois ele é. Com este livro aprendi que cada pessoa apreende o mundo de uma forma particular. Aprendi também que um mesmo acontecimento contado por duas pessoas pode não parecer o mesmo acontecimento e não necessariamente uma delas esteja mentindo; e que só é possível condenarmos uma pessoa se recortarmos sua história e suas atitudes. Enfim, compreendi que somos sempre livres para nos escolhermos, mas essa liberdade só aparece em situação onde estamos necessariamente sob um jogo de forças.

O livro começa com uma situação intrigante: Jean Aguerra, que foi aclamado como líder do país em uma revolução que ocorreu sete anos antes, é acusado de traidor e de tirano pelo povo e por todos os seus companheiros. Todos querem matá-lo, mas antes querem julgá-lo. Talvez por acharem que a morte seja pouco – para um homem rude, refém de seus complexos, que despejou toda a sua ira no povo, arrogante a ponto de querer governar sozinho – ou talvez por quererem compreender o que foi que ocorreu. Jean aceita a própria morte e de início se recusa defender-se. Isso demonstra que, além de ser rendido fisicamente, Jean não tem nenhuma perspectiva de mudar o seu destino.

Começa o julgamento, começam os depoimentos: primeiro Darieu, depois Suzanne e o Criado; depoimentos que confirmam a visão que se tem de Jean até este momento da narrativa. François e Darieu não se conformam com o fato de Jean não se defender. O primeiro pede ao segundo que vá buscar Helene. Esta, a princípio, nega-se a ir, mas quando sabe da presença de Suzanne no julgamento, é tomada pela ira e decide participar. A chegada de Helene muda o rumo dos acontecimentos, Jean passa a falar o que estava acontecendo e porque tomou as atitudes de que era acusado. Neste momento vemos a função que cada um tem no outro e como é esse jogo de funções, esse cruzamento de escolhas singulares que vai “decidindo” os acontecimentos.

Jean, Helene e Suzanne contam a sua versão de um mesmo episódio, o que acaba deixando claro que para compreendermos uma pessoa é necessário compreendê-la dentro de sua situação. Cada um tinha não só uma versão dos fatos, mas também um juízo acerca do outro. À medida que cada um vai se posicionando, colocando-se com sua história, suas frustrações, seus desejos, suas escolhas, vai ficando compreensível que a história do grupo é constituída pelo conjunto dos movimentos de cada integrante do grupo. Cada pessoa é uma peça e é este movimento grupal que vai definindo os caminhos da revolução, do governo, de um povo e de uma nação.

Convido todos a lerem este livro, mas que, independente disso, possamos discutir a diferença que faz considerarmos as situações em seu conjunto e considerá-las parcialmente, nos fixando em alguns pontos, em negação a outros.

Espero a contribuição de todos vocês. Vamos nós também, através de nossos projetos, desejos, aspirações, dúvidas, críticas, pensamentos e sugestões, passarmos a definir o rumo da psicologia existencialista e da psicologia de uma forma geral.

Um comentário:

Anônimo disse...

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